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Quando começou a jogar futebol na rua com os primos, aos 7 anos, em Lages, Carolina Matos de Liz Ribeiro não imaginava até onde a bola a levaria. Em 2002, mudou-se com a família para Balneário Camboriú e continuou jogando nas ruas, na escola e sempre que surgia uma oportunidade. Anos depois, o esporte deixaria de ser apenas uma brincadeira de infância para se tornar parte importante de sua história.
Foi em 2011, ainda na escola, que Carolina começou a se aproximar do futsal de forma mais séria. Após um convite do primo, conheceu Leandro Aguiar, na época treinador da Fundação Municipal de Esportes (FME) de Balneário Camboriú e passou a participar dos treinos. Dois anos depois, um novo encontro transformaria sua relação com o esporte: Carolina conheceu a Associação de Surdos de Balneário Camboriú (ASBAC) e descobriu que havia uma equipe feminina de futsal formada por atletas surdas.
“Fiquei muito feliz, porque até então eu não imaginava que existia um espaço como aquele para mim. Encontrar outras meninas surdas, cada uma com sua própria história e diferentes graus de surdez, mas que compartilhavam muitas das dificuldades e experiências dentro e fora da quadra, foi muito importante. Foi a primeira vez que senti que estava em um lugar onde muitas coisas não precisavam ser explicadas, porque as outras meninas também entendiam”, conta Carolina.
A história da atleta ajuda a mostrar a importância do esporte para a comunidade surda de Balneário Camboriú. Neste sábado (26), quando é celebrado o Dia Nacional dos Surdos, o município destaca a trajetória de atletas que encontraram nas quadras não apenas um espaço para competir, mas também de convivência, pertencimento e desenvolvimento.
Ao longo dos anos, Carolina passou a representar Balneário Camboriú em competições pelo Brasil e chegou também ao cenário internacional. Entre as conquistas que guarda na memória está o título do Mundial de Futsal de Surdos de 2019. A atleta também teve a oportunidade de representar o Brasil e agora mantém um novo objetivo: preparar-se para a Surdolimpíada de Inverno de 2027, na Áustria.
“Para mim, o futsal representa muito mais do que competir. É onde eu me sinto livre, onde consigo mostrar quem eu sou e onde encontrei pessoas que fizeram parte da minha evolução dentro e fora da quadra. O esporte também me deu um sentimento de pertencimento. Encontrar a ASBAC e outras meninas surdas mudou a minha relação com o futsal e comigo mesma”, afirma.
Representação dentro e fora das quadras - A ASBAC conta com o apoio da Fundação Municipal de Esportes (FME) de Balneário Camboriú para a participação em competições de futsal. Em 2026, a equipe feminina conquistou o vice-campeonato da Copa Brasil de Futsal de Surdos, competição na qual já soma dois títulos. No masculino, os atletas fizeram história ao conquistar, pela primeira vez, o título dos Jogos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc).
Os resultados alcançados por atletas surdos do município também se estendem a outras modalidades. No Parajasc de 2026, Balneário Camboriú conquistou o bicampeonato geral do atletismo feminino e obteve resultados de destaque na natação.
Para o diretor-presidente da FME, Diogo Catafesta, as conquistas refletem a importância de criar condições para que os atletas possam desenvolver suas trajetórias no esporte.
“O esporte precisa ser um espaço de oportunidades para todos. Nosso trabalho é garantir condições para que esses atletas possam treinar, competir e representar Balneário Camboriú. Cada resultado nos enche de orgulho, mas o mais importante é saber que estamos contribuindo para que eles tenham espaço, reconhecimento e oportunidades para chegar cada vez mais longe”, destaca.
Por trás dos resultados estão anos de treinamento e uma rotina acompanhada de perto pela equipe técnica. A treinadora da FME, Aline Grinwald, ressalta que os benefícios percebidos ao longo desse processo ultrapassam as quadras. Para ela, o esporte contribui para a autonomia, a autoestima e o trabalho em equipe, ao mesmo tempo em que abre caminhos para que os atletas desenvolvam seu potencial.
Essa convivência também transformou a experiência da própria treinadora. “Trabalhar com a equipe de atletas surdos da ASBAC é uma experiência muito gratificante. São atletas disciplinados e comprometidos com seus objetivos”, conta Aline. Ao falar sobre a relação construída com o grupo, ela resume: “Para mim, é um local onde eu aprendo muito mais do que ensino.”
As conquistas recentes ajudam a dimensionar esse trabalho. Para Aline, os resultados do Parajasc representam mais do que medalhas e troféus, por reunirem anos de dedicação dos atletas, da comissão técnica e das instituições parceiras. Para quem entra em quadra, esse reconhecimento ganha ainda outro significado.
Uma história que continua - Depois de mais de uma década ao lado da ASBAC, Carolina ainda olha para a frente. Os títulos e as experiências acumuladas ao longo da trajetória dividem espaço com os próximos objetivos dentro do esporte.
Representar Balneário Camboriú, segundo ela, carrega também a história das pessoas que estiveram ao seu lado desde os primeiros passos no futsal.
“Foi aqui que cresci, onde comecei minha trajetória no futsal e onde encontrei o meu espaço no esporte. Quando entro em quadra representando a cidade, sei que também estou levando comigo um pouco da história de todas as pessoas que fizeram parte dessa caminhada e ajudaram a me tornar a atleta que sou hoje.”
Agora, os treinamentos continuam com os olhos voltados para 2027. “Olho para tudo que já vivi com muito carinho e orgulho, mas ainda sinto que tenho muita coisa para conquistar”, finaliza Carolina.




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