Nesse ano, o meu agosto lilás começou num abrigo de mulheres vítimas de violência, em Balneário Camboriú. Um lar sem endereço, sem número. Não existem visitas. Nenhum parente ou amigo. A não ser os laços da rede de proteção. Nesses casos, é a única forma de protegê-las. Porque? Você sabe: o agressor quando está disposto a matar não escolhe lugar.
O silêncio das almas das mulheres da Casa Alva se mistura com as inocentes brincadeiras das crianças pelos corredores. A equipe da instituição, a quem eu denomino de anjos, se desdobra em cuidados e carinhos. Sim, a tarefa mais dura é fazer que os corações dilacerados pela dor dessas mulheres e crianças tenham uma chance de reconquistar a confiança no amor. Todos os bens daquelas mães e seus filhos cabem em um único quarto. E, acreditem, para essas mulheres, é muito mais do que desejavam. A maioria delas já se sentiam “mortas” até serem resgatadas. Só conseguiram fugir da violência para que seus filhos pudessem viver.
"Joana" conheceu um rapaz na internet. Querido. Gentil. Educado. Três meses de relacionamento virtual, ele a convidou para conhecer a família, no interior do estado. Ela foi, e não teve o direito de voltar. Foram cinco anos de cárcere. Cinco anos sendo abusada e negociada em prostíbulos. Até que engravidou. Ele tentou provocar o aborto, ela resistiu. Com oito meses de gestação, ele a levou para outra cidade, para que tivesse o bebê. O seu filho foi vendido ainda no ventre, e seria entregue logo após nascer. Com a graça de Deus, num “descuido” do agressor, ela conseguiu fugir.
"Maria" é mãe atípica de três filhos neurodivergentes. Linda. Uma joia rara. Sem família, sem rede de apoio. Teve que fugir para que ela e os filhos não fossem mortos. Está no abrigo há pouco tempo. Mas não vai estar pronta para retomar a sua vida em seis meses, que é o tempo máximo que o convênio com o estado prevê.
Essas são só algumas das histórias da Casa Alva. Um trabalho de acolhimento a mulheres e crianças vítimas de violência que já dura 14 anos, aqui em Santa Catarina, e se tornou referência no Brasil. Mas o trabalho delas, da Regina do CMBA, em Penha, e de mais poucas unidades que persistem em meio a indiferença e a fragilidade das políticas públicas, é pouco demais para uma demanda que só cresce em Santa Catarina.
A falta de vagas em abrigos para mulheres vítimas de violência é um dos dramas que enfrentamos. O acesso a essas vagas também.
É urgente rever o acesso à proteção. A liberação de uma vaga, via de regra, só é obtida de segunda a sexta, em horário de expediente público. Ocorre que a mulher não apanha das 8h às 18h. A violência se escancara nas madrugadas, nos fins de semana, nos feriados. E o serviço de assistência social, na maioria dos lugares, não dispõe de um plantão regulado para o atendimento.
Outro grave problema é o tempo de permanência. Na maioria dos convênios de vagas financiadas pelo setor público, o período de cobertura é de apenas 6 meses. Como, meu Deus, que uma mãe de tres filhos neurodivergentes vai se recolocar no mercado de trabalho e assumir a sua vida em seis meses?
E, sabe o que acontece? Muitas delas se obrigam a voltar para o agressor, porque não tem para onde ir. O fim da história? Mais uma mulher morta noticiada na imprensa.
Precisamos falar sobre isso. Urgentemente.
O número de mulheres nessa situação é incrivelmente muito maior do que a sociedade imagina. Mulheres de todas as idades, classes sociais, lugares. Muito mais do que a capacidade que o estado tem de cuidar delas, inclusive. É por isso, também, que muitas delas morrem.
Passar pela Casa Alva rasgou a minha alma de um jeito irremediável. Esse lugar, cujo convite para visitar não posso estender a você, leitor (a), luta bravamente para contrastar a devastação que essas mulheres e crianças sofreram, oferencendo uma hipótese de esperança e futuro para elas. Mas essas instituições precisam de apoio.
É por todas as mulheres, especialmente as que ainda não conseguiram sair do ciclo de violência, que eu não posso abrir mão dessa causa. Como deputada, propus a Lei que institui o Programa Tem Saída, para dar caminho e apoio a quem precisa sair de uma relação violenta. Aprovada, agora ela precisa sair do papel. Sigo insistindo na aprovação de outros projetos de lei, destacando o que cria o cadastro de agressores, o protocolo Não é Não, o PL que unifica a política de proteção à mulher, e tantos outros. E é por isso que insisto em perseverar, honrando cada mulher que, eu sei, conta com a nossa voz para ter uma chance.
Enquanto nos limitarmos a lamentar a morte de Déboras, Maiaras, Paolas, Carlas, Rosanes, Nilséias, enquanto as casas de abrigo precisarem funcionar em endereço oculto, essa luta não terminará.
É ainda mais urgente que a politica, de uma vez por todas, pare de negar o feminicídio. É inadmissível que nesse país se permita que o patrocínio da violência contra a mulher seja confundido com “liberdade de expressão”. Sejamos honestos: Mulheres de esquerda, de direita, morrem todos os dias. Mulheres, na verdade, que sequer tem espaço para pensar em outra coisa que não seja sobreviver, estão sendo estupidamente mortas todos os dias debaixo dos nossos olhos, e os seus filhos também.
Eu me recuso a parar por aqui. Me recuso a me calar. E é exatamente por isso que você também precisa se posicionar. Antes que essa violência bata a sua porta. Pense nisso.
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