Aguarde, carregando...

Quinta-feira, 27 de Agosto 2026
Colunas/OPINIÃO

ATALHO OU ATRAPALHO?

Por Jaime Telles

ATALHO OU ATRAPALHO?
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Uma sigla é um atalho. E todo atalho pressupõe que conheçamos o caminho.

As siglas estão por toda parte: PIB, STF, INSS, IBGE, MEC, OMS, ONU, IA... Reconhecemos muitas delas, mas reconhecer não significa compreender.

O problema começa quando a economia de palavras se transforma em economia de explicações.

A palavra desapareceu, mas ficou o rótulo. E rótulo não é conhecimento.

Acostumados aos atalhos, podemos transformar a própria leitura em automatismo. Passamos pelos textos e pelas notícias recolhendo sinais, sem nos deter no que significam. Não estamos apenas abreviando palavras; podemos estar abreviando a própria atenção.

Economizamos segundos ao abreviar. Para quê? Para onde estamos correndo? E o que deixamos de perceber enquanto corremos?

Não se pode tratar como sabedor aquele que não foi ensinado

Quando o especialista economiza segundos, o leitor que desconhece a sigla pode perder o sentido do que lê.

E aqui está o ponto delicado: não se pode tratar como sabedor aquele que não foi ensinado.

O Brasil convive há décadas com sérias dificuldades de aprendizagem. Cerca de metade dos estudantes brasileiros alcança o nível mínimo de proficiência em leitura, abaixo da média da OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Não se pode atribuir isso às siglas. Mas quem tem dificuldade para ler e interpretar é mais vulnerável a códigos, jargões e conceitos que não lhe foram ensinados.

A Educação não pode considerar formado simplesmente aquele que passou pela escola. Muitos passam sem aprender.

A familiaridade com os códigos pode produzir uma perigosa sensação de domínio. Aí a ignorância pode ser confundida com conhecimento

Informação não é conhecimento; conhecimento não é compreensão; e compreensão não é pensamento crítico.

E isso vai além das siglas. Quanto mais nos acostumamos a passar rapidamente pelas coisas, maior o risco de não percebermos o que está diante de nós: uma notícia importante, uma ideia nova, uma informação contraditória, um argumento que mereceria reflexão. Perceber as entrelinhas, muito menos.

Primeiro o conhecimento; depois o atalho

Uma democracia não pode exigir que o cidadão que faz pose de sabedor sem de fato saber. Não precisamos de uma linguagem pobre, mas de uma linguagem clara. Uma sigla pode ser útil, desde que seu significado seja apresentado ou já sabido. Uma palavra técnica pode ser usada, desde que explicada ou já intrínseca no vocabulário de quem a lê ou ouve.

A regra é simples:

primeiro o significado; depois a abreviação.

Primeiro o conhecimento; depois a velocidade.

Vivemos sob um culto à velocidade. Tudo precisa ser rápido. Mas o aprendizado carece de exercício e maturação. Importa muito mais o conteúdo de livro do que sua capa.  Compreender não pode ser rápido. Pensar certamente ocorre às pressas.

O problema não está nas letras, mas na informação que elas contam e que não devem ficar camufladas na abstração, como se todos já dominassem aquele conteúdo. 

Uma democracia madura precisa de cidadãos capazes de perguntar:

“O que isso significa?”

Antes de abreviar as palavras, precisamos perguntar se não estamos também abreviando o tempo necessário para pensar.

Primeiro o caminho; depois o atalho.

FONTE/CRÉDITOS: Por Jaime Telles

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR