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Domingo, 09 de Agosto 2026
Colunas/OPINIÃO

O GRITO DO APITO

Por Jaime Telles

O GRITO DO APITO
Divulgação
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Muito mais que um prédio antigo, a estação ferroviária de Herval d'Oeste representa um marco fundador do desenvolvimento do Meio-Oeste catarinense. Uma anunciada revitalização da Praça da Rede Ferroviária abre um verdadeiro debate sobre como conciliar modernização e preservação de um patrimônio que, há décadas, sofre com o abandono institucional.

O debate é mais oportuno do que tardio.

Herval d'Oeste vive um momento em que progresso e preservação parecem ocupar lados opostos da mesma praça. A discussão em torno da revitalização da antiga Praça da Rede Ferroviária extrapolou a engenharia e alcançou um terreno ainda mais sensível: a memória coletiva.

Estamos falando de um dos maiores patrimônios históricos do Meio-Oeste catarinense que tornou-se a principal porta de entrada para pessoas, mercadorias, investimentos e oportunidades que impulsionaram o desenvolvimento regional.

Antes de qualquer discussão sobre a obra atual, convém reconhecer uma verdade frequentemente esquecida: a estação jamais recebeu uma política permanente de preservação. Desde o fim do transporte ferroviário de passageiros, em 1983, e principalmente após a privatização da malha ferroviária, em 1996, o imóvel passou a conviver com abandono, usos improvisados e responsabilidades compartilhadas entre concessionária, União e administrações municipais.

Nesse permanente empurra-empurra institucional, a estação envelheceu.

Muito antes das obras atuais, o patrimônio já acumulava poeira, infiltrações e degradação.

É natural que uma cidade queira renovar seus espaços públicos. Ninguém, em sã consciência, defende o abandono em nome da história.

A pergunta é outra: uma revitalização pode modificar justamente aquilo que torna único aquele lugar?

Patrimônio histórico jamais deve ser confundido com obstáculo ao desenvolvimento. Uma estação ferroviária vale muito mais do que os tijolos que sustentam suas paredes. Seu verdadeiro valor está nas histórias que abriga, na arquitetura que preserva e na memória coletiva que representa.

Cada peça de madeira original, cada estrutura metálica, cada detalhe arquitetônico carrega um significado que dificilmente pode ser reproduzido depois de perdido. E existe também o patrimônio imaterial: os reencontros, as despedidas, os embarques, os sonhos, os negócios e a construção da identidade regional e, pasmem, até o nascedouro da “LARFIAGEM”, uma espécie de dialeto HERVALÊS que jamais será desatrelado da estação.

A legislação brasileira reconhece que patrimônio cultural não é formado apenas por construções, mas também pelos bens que carregam referências de identidade, ação e memória dos grupos que formaram uma sociedade. Proteger um lugar como a Estação Ferroviária de Herval d'Oeste não significa congelá-lo no passado, mas garantir que ele continue contando sua história no futuro.

As cidades mais admiradas do mundo compreenderam isso há muito tempo. Restauram, adaptam, modernizam, mas preservam sua identidade. Entendem que edifícios históricos não competem com o futuro; ajudam a qualificá-lo.

Não se trata de transformar a estação em um museu intocável. Patrimônio precisa cumprir função social, receber pessoas, sediar eventos e permanecer vivo. Mas permanecer vivo não significa deixar de ser quem é.

Entre conservar tudo e modificar tudo existe um caminho mais inteligente: restaurar com responsabilidade.

Talvez esta seja a grande oportunidade de Herval d'Oeste. Fazer da revitalização um exemplo de equilíbrio entre modernidade e respeito à história. Uma oportunidade, inclusive, de discutir mecanismos permanentes de proteção, como o reconhecimento formal de seu valor histórico e cultural.

Porque preservar não é impedir o futuro. É permitir que o futuro saiba de onde veio.

Enquanto o concreto envelhece a identidade permanece.

Patrimônios históricos devem ser cuidados pelos administradores de hoje, porque pertencem  aos que vieram antes de nós e, sobretudo, aos que ainda virão.

Toda geração recebe uma cidade como herança e será julgada pelo modelo que legar.

Se já não ouvimos o apito do trem, também não podemos ignorar o grito da memória. Porque os trilhos podem enferrujar, as estações podem envelhecer, mas a história que ajudaram a construir continua pedindo passagem. Sim. Permanecem, etéreas e palpáveis, as marcas de décadas de idas e vindas que impulsionaram o progresso do Meio-Oeste catarinense.

FONTE/CRÉDITOS: Por Jaime Telles

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