Ao raiar de cada dia, o primeiro desafio é alimentar nossas escolhas. Valorizar as pessoas que vão nos enxergar com os cabelos em desalinho, olhos inchados e semblante carregado, como se naquele instante tudo se resumisse a dúvidas.
Uma breve consulta ao espelho já aponta o que e o quanto há por corrigir, limpar, ajeitar e apresentar sob novo aspecto. Isso mesmo: escolher, verbo forte e presente por toda a vida.
Cada dia nasce com todas as possibilidades. Para que seja bom ou ruim, produtivo ou desperdiçado, pouco dependerá da posição dos ponteiros e muito daquilo a que decidirmos dar atenção. O sol é o mesmo para todos. O vento e a chuva não fazem distinções. Há recursos, ideias, oportunidades, gente boa e gente nem tanto. Há portas abertas e outras que exigirão algumas batidas. Tudo nos desafia a raciocinar, decidir e agir para alcançar o nosso melhor — e, se possível, promover também o melhor aos outros.
A vida nem sempre entrega cardápio com pratos de nossa preferência.
Haverá manhãs ensolaradas e outras em que a esperança estará camuflada atrás de nuvens densas, aguardando seu momento. Haverá notícias boas e também problemas que não pedem licença. Gente para estender a mão e gente para puxar o tapete. Não nos cabe escolher o que pode acontecer a partir dos outros. Mas faz toda diferença escolher bem o que faremos com aquilo que nos acontece.
Viver é muito mais que passar pelos dias.
No mesmo nível e com a mesma intensidade, bonança e miséria disputam nosso interesse. Agem tanto no silêncio que faz pensar quanto na balbúrdia que confunde, destoa e perturba. Isso está na roupa, no alimento, na música, nas artes, na arquitetura, na escrita. Está em tudo, desde a faxina do casebre à assepsia que antecede ao ato cirúrgico. Como e por que fazemos como fazemos? Quais os motivos que nos conduzem ao capricho ou ao desmazelo? O que esperamos que aconteça? Como agimos quando acontece?
Diante da mesma dificuldade, a solução e o caos podem se apresentar lado a lado. Resta observar quais elementos intangíveis alimentam nossos pendores. Sim. Porque penderemos para este ou aquele lado, impelidos também por algo que já carregamos.
Há quem acorde e imediatamente dirija máxima atenção àquilo que lhe falta. Reclama do tempo, do governo, do vizinho, do trabalho, da idade, do dinheiro e até do café que esfriou. Antes mesmo de o dia começar, já reuniu argumentos suficientes para convencer a si mesmo de que nada dará certo.
Outros despertam cercados pelas mesmas imperfeições, mas optam por conjecturar sobre aquilo que ainda pode ser feito — e quanto pode resultar quando for bem feito.
Isso é fato que se repete na vida de todos, sejam ricos ou pobres. O mundo está repleto de oportunidades para empobrecer o rico, assim como para enriquecer o pobre. Exemplos não faltam. Aquilo que alimentamos cresce dentro de nós. A gratidão pode crescer. A coragem também. Mas a mágoa, a inveja, o ressentimento e o pessimismo seguem a mesma regra.
O convite é quanto às escolhas, por simples ou corriqueiras que sejam as conjunturas.
Que seja mesmo o travesseiro nosso melhor conselheiro e que o clarear do dia seja igualmente o clarear das ideias.
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