A violência que interrompeu a apresentação do cantor piauiense no Mercado Municipal de Campo Maior fez aquilo que anos de dedicação aos palcos ainda não haviam alcançado: revelou ao Brasil um artista que, até então, era conhecido apenas em sua terra como Cowboy Selvagem.
É uma dessas ironias que a vida escreve sem pedir licença. A violência lhe abriu uma porta que o mérito encontrava sempre fechada. Vieram o carinho, a solidariedade, os convites, cachês melhores, a multidão que descobriu — tarde, mas em tempo — quem ele era, o que cantava e por que cantava, muito antes de virar notícia.
Não culpo quem assistiu à cena sem reagir. O absurdo choca e até paralisa.
Cowboy é apenas mais um entre milhares. O Brasil é uma imensa plateia distraída que escuta muito e pouco ouve. Não percebem o valor que reside nas vozes que ecoam nas feiras, nos mercados, nas praças, nas calçadas e nas festas do interior. Daqueles que vestem o colorido possível que os distingue do comum, porque a alma do artista não suporta ser plateia e a horripila o ostracismo. Aparecer é parte do seu ser. Quase sempre trazem ao peito um violão cansado, uma sanfona antiga ou qualquer instrumento capaz de dar tom e cadência aos versos que denunciam suas origens, suas perdas e seus aprendizados. Caminham por uma estrada pavimentada de esperança, onde sobreviver é um ato de inquietante teimosia.
São eles que guardam os sotaques, os causos, os risos, as modas e a poesia e a malemolência que não consta nos livros porque preferiu a exclusividade e a efemeridade de ser apenas povo com povo. Enquanto o país consome celebridades fabricadas em série, esses artistas preservam aquilo que dinheiro nenhum compra: a memória afetiva de uma gente.
Quando um deles é humilhado, não se fere apenas um homem. Arranha-se a delicada pele da cultura brasileira.
Talvez o simpático Cowboy Selvagem finalmente alcance o reconhecimento que sempre mereceu.
E, para que não se diga que esqueci o agressor, recorro às palavras que atravessaram dois milênios:
"Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem." (Mateus 18:7)
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