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Colunas/OPINIÃO

JOAÇABA SUBTERRÂNEA

Por Jaime Telles

JOAÇABA SUBTERRÂNEA
Divulgação
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Afinal, o que existe debaixo dos nossos pés?

A pergunta ganhou importância depois da forte chuva desta semana, que novamente transformou ruas em rios, provocou alagamentos, prejuízos e transtornos em Joaçaba. É um problema que se repete em outras cidades atravessadas por rios e riachos. Mas, desta vez, Joaçaba gritou por socorro. Já entrou para a história a cena do carro preto desaparecendo na correnteza.

Em casos assim, o que é obra da natureza e o que é obra — ou inércia — humana?

Não se trata apenas de olhar para o céu e lamentar a quantidade de chuva. O furo é mais embaixo.

Como a maioria das cidades, Joaçaba, a mais vertical do interior catarinense, não nasceu planejada. Seus prédios encantam e surpreendem. Mas ela também surgiu povoado, cresceu e somente décadas depois conheceu instrumentos de ordenamento urbano. Talvez ninguém imaginasse que alcançaria a importância regional que tem hoje, impulsionada por um povo aguerrido e empreendedor. O problema é que, muitas vezes, a cidade cresceu mais depressa do que a capacidade de planejar seu próprio futuro.

A água não pede licença e a geografia cobra a conta.

Joaçaba tem uma topografia que lembra um tacho. Morros formam boa parte de seu entorno, hoje ocupados por vegetação, rochas, ruas e edificações. Há áreas de risco, vielas, becos e construções que parecem equilibrar-se nas encostas íngremes. Na parte baixa estão o centro nervoso, grandes prédios e dois cursos d'água fundamentais: o Rio do Tigre, cortando a área central, e o Rio do Peixe, separando Joaçaba de Herval d'Oeste.

Décadas de urbanização acrescentaram ruas, calçadas, concreto e asfalto, impermeabilizando grandes áreas. Quando chove intensamente, menos água infiltra e mais água desce — rapidamente — para a parte baixa desse “tacho”. Ali, o pequeno Rio do Tigre quase se afoga: encontra transversalmente o Rio do Peixe justamente quando ambos recebem enorme volume de água. Com o rio maior também elevado, resta saber quanto essa condição dificulta o escoamento do menor, que incha e transborda.

Precisamos saber mais sobre a nossa Joaçaba subterrânea.

O Rio do Tigre desaparece sob edificações e estruturas urbanas em alguns trechos. Em um deles, passa sob parte de uma edificação sustentada por numerosos pilares de concreto, que, assim como estreitamentos, tubulações e galerias antigas, podem reduzir a seção de escoamento e reter galhos, troncos e objetos carregados pela correnteza, formando barreiras ainda maiores. Quantos pilares existem? De qual espessura e espaçamento? Quanto da passagem permanece efetivamente livre? Qual a idade das canalizações e de que materiais são feitas? Com que frequência se faz inspeção e limpeza? E, além daquele ponto, quantos outros gargalos podem estar escondidos debaixo da cidade? Só vamos procurá-los depois de outra intempérie? No episódio de 11/09, a água chegou a passar por cima de pontes.

Não se trata de atribuir a esta ou àquela estrutura a responsabilidade pela inundação. Trata-se de fazer uma pergunta simples e incômoda:

Joaçaba conhece suficientemente o seu próprio subsolo?

Uma cidade que completou 107 anos não pode administrar apenas aquilo que os olhos enxergam. Asfalto, praças, fachadas e obras visíveis são importantes. Mas administrar também significa cuidar daquilo que ninguém fotografa para inaugurar.

É preciso mapear galerias, cursos d'água canalizados, pilares, tubulações, pontos de estrangulamento e capacidade de vazão. Inspecionar. Limpar. Medir. Projetar cenários extremos.

E talvez seja hora de “cortar na carne” — não no sentido de simplesmente cortar despesas, mas de romper prioridades, frear a administração do imediato e assumir uma gestão corajosa, capaz de buscar recursos e executar intervenções estruturantes. Mesmo caras. Mesmo difíceis. Mesmo demoradas. Mesmo que estejam debaixo da terra e não rendam uma bela fotografia de inauguração.

Porque a próxima chuva virá.

Joaçaba é a cidade-mãe do Meio-Oeste. Tem força econômica, conhecimento técnico e uma iniciativa privada que frequentemente demonstra ousadia, investimento e capacidade de antecipação.

E há outra reflexão que o ocorrido na sexta-feira impõe. Era um dia comum numa cidade que sabe realizar grandes eventos e receber milhares de pessoas. Por sorte, não havia uma grande aglomeração justamente nas áreas mais atingidas. E se houvesse?

Defendo há tempos que, se nossas administrações municipais se mirassem mais nos bons exemplos da iniciativa privada local, Joaçaba poderia estar entre as cidades de primeiro mundo. Potencial não nos falta.

Talvez esteja faltando olhar menos para a Joaçaba que aparece — e começar, definitivamente, a conhecer, planejar e cuidar da Joaçaba que corre debaixo dos nossos pés.

Com os pés-no-chão, mas sem precisar de galochas.

FONTE/CRÉDITOS: Por Jaime Telles

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