Às 9h14 deste domingo, 9 de agosto, Débora Simas viu ficar para trás a marca que perseguiu durante anos. A ultramaratonista catarinense ultrapassou os 846,16 quilômetros e estabeleceu um novo recorde mundial feminino de corrida em esteira por sete dias. Ao completar as 168 horas de prova, no Beiramar Shopping, em Florianópolis, chegou a 866,21 quilômetros percorridos.
A marca anterior pertencia à neozelandesa Emma Timmis, que percorreu 846,16 quilômetros entre 9 e 16 de junho de 2024, em Christchurch, na Nova Zelândia.
A conquista veio sete anos depois da primeira tentativa de Débora, no mesmo local. Em 2019, ela percorreu 800,61 quilômetros em sete dias no Beiramar Shopping, resultado que lhe garantiu os recordes brasileiro e sul-americano. Desta vez, voltou aos 55 anos com um objetivo definido: ultrapassar a marca mundial.
Foram dois anos de preparação específica, com os últimos seis meses dedicados a uma rotina ainda mais intensa. Débora conciliou os treinamentos com dois empregos: durante o dia, trabalha em uma agropecuária e, à noite, em uma lanchonete.
Sua história no atletismo começou há 22 anos, também de maneira pouco convencional. Na época, trabalhava em uma lanchonete dentro de uma academia, em Florianópolis, quando decidiu participar de uma prova de nove quilômetros. Sua primeira treinadora percebeu a aptidão para provas de resistência e a direcionou para as longas distâncias. Na primeira maratona oficial, Débora completou os 42 quilômetros em 3h27min e subiu ao pódio.
De lá para cá, foram cerca de 300 competições, o tricampeonato da Brasil 135 Ultramarathon e o feito de se tornar a primeira brasileira a completar a 1000K Brasil, percorrendo mil quilômetros em dez dias.
A vontade de buscar o recorde mundial surgiu depois de uma palestra do ultramaratonista Márcio Vilar, recordista mundial da modalidade entre os homens. Débora decidiu que também queria escrever seu nome na história e passou a direcionar parte da carreira para esse objetivo.
Dormir pouco também fazia parte da estratégia. Nas primeiras noites, os períodos de sono ficaram em torno de três horas e eram reavaliados conforme a quilometragem, o desgaste e as condições físicas da atleta.
A prova esteve longe de seguir uma linha previsível. Houve dores musculares e articulares, contraturas, câimbras e momentos em que a equipe precisou rever o planejamento e recalcular a estratégia.
Para Débora, os sete dias exigiram uma combinação de resistência física e controle mental. “Foram sete dias muito intensos. Tive que enfrentar o sono, as dores, o cansaço e momentos em que a cabeça precisava ser mais forte do que o corpo. Eu sabia o quanto havia trabalhado para estar aqui. Foram dois anos me preparando para esta semana. Então procurei não pensar nos mais de 846 quilômetros. Pensava no próximo quilômetro, no próximo passo. Foi assim que consegui continuar”, celebrou a ultramaratonista e agora detentora do recorde mundial.
Uma prova que mudou durante o percurso - Um dos momentos mais delicados aconteceu na noite de quarta-feira. Débora teve uma câimbra forte e chegou perto de perder os sentidos. A equipe precisou intervir e o planejamento traçado para os dias seguintes foi revisto.
Para o médico Daniel de Souza Carvalho, que acompanhou a atleta durante o desafio, aquele momento deixou ainda mais evidente o peso do componente mental em uma prova dessa dimensão. “Na quarta-feira à noite chegamos a um ponto muito delicado. A Débora teve uma câimbra forte, quase apagou, e percebemos que seria necessário refazer o planejamento. Em uma prova de sete dias, não basta ter condicionamento físico. A parte mental pesa muito e é preciso saber responder ao que acontece. Curiosamente, o sábado, que imaginávamos que seria um dos dias mais críticos pelo desgaste acumulado, acabou sendo um dia espetacular. Ela respondeu muito bem e conseguimos avançar bastante.”
Ao treinador Paulinho Keto coube administrar o ritmo da prova sem comprometer a capacidade de Débora de chegar competitiva às últimas horas. “Em uma prova de sete dias, não adianta querer ganhar tudo no primeiro ou no segundo dia. Trabalhamos o tempo inteiro olhando a quilometragem, o ritmo, o desgaste e o que ainda tínhamos pela frente. Houve momentos de avançar e momentos em que preservar a Débora era mais importante. Tivemos que mudar a estratégia ao longo do caminho, e ela teve disciplina para confiar nessas decisões. Chegar à reta final em condições de buscar o recorde foi resultado desse trabalho.”
Na sexta-feira pela manhã, a estratégia já mostrava resultado. Às 9h, Débora havia percorrido 601,29 quilômetros, antecipando em três horas uma das metas previstas pela equipe. Pela planilha, os 600 quilômetros deveriam ser alcançados ao meio-dia.
Segundo Geovany Eli Silveira Crespi, fisioterapeuta de Débora Simas, a capacidade de suportar esse desgaste está diretamente relacionada ao trabalho desenvolvido antes da tentativa de recorde. “A preparação da Débora vem de muito tempo e foi feita de maneira consistente. Isso fez diferença quando chegaram os momentos mais difíceis. Tivemos dias de muita dor muscular e articular e, na madrugada de sexta para sábado, ela apresentou muitas contraturas e dores. Nosso trabalho era intervir, aliviar esses sintomas e criar condições para que ela pudesse continuar com segurança. Agora começa outro processo importante, que é a recuperação. Ela vai precisar dormir, repousar, manter uma boa alimentação e continuar com a fisioterapia para que o corpo possa se recuperar de uma exigência dessa dimensão.”
Quando o desafio passou a ser também mental - À medida que os quilômetros se acumulavam, manter Débora na prova passou a exigir mais do que controle de ritmo e cuidados com o corpo. Nos momentos de maior desgaste, era preciso ajudá-la a recuperar a concentração, lembrar o caminho percorrido até ali e reencontrar as razões que a levaram a buscar o recorde. Esse trabalho coube também a Anderson Ramos Floriani, mentor de Débora, que permaneceu ao lado da atleta especialmente nos períodos mais críticos.
“Meu maior desafio não era fazer a Débora correr mais rápido. Era conseguir entrar na cabeça dela nos momentos em que ela ia para o buraco e ajudá-la a voltar. Quando o cansaço, a dor e a privação de sono tomavam conta, meu trabalho era lembrá-la de por que ela estava fazendo aquilo, de tudo o que havia feito para chegar até aqui e, principalmente, de por que ela merecia viver esse momento. Muitas vezes era preciso fazê-la enxergar novamente aquilo que, no limite, ela já não conseguia ver. Desde quinta-feira de manhã até este domingo, eu dormi apenas três horas. É exaustivo, mas quando você vê a Débora ultrapassar aquela marca e realizar um sonho construído durante tantos anos, tudo é recompensado. A gente entende que cada hora acordado valeu a pena.”
A trilha sonora de 168 horas - Havia uma companhia presente muito antes de Débora subir na esteira do Beiramar Shopping: a música. Durante os meses de preparação, ela fez parte dos longos treinamentos e ajudou no ritmo e na concentração. Nos sete dias da tentativa de recorde, ganhou uma função ainda maior. As músicas ajudavam a quebrar a repetição das horas sobre a esteira, manter a cadência e atravessar os períodos de maior desgaste.
Em diferentes momentos, também funcionaram como estímulo emocional, especialmente durante as madrugadas e quando o cansaço aumentava. A trilha que acompanhou Débora durante a preparação chegou com ela às 168 horas mais importantes de sua carreira.
De um sonho individual a uma conquista coletiva - Se Débora começou a semana perseguindo uma marca pessoal, terminou cercada por uma torcida que passou a acompanhar sua quilometragem diariamente.
Durante os sete dias, o público pôde assistir gratuitamente à tentativa e, em determinados períodos, correr nas esteiras instaladas ao lado da atleta. Houve quem retornasse ao shopping em diferentes dias para acompanhar a evolução da quilometragem, além das mensagens e manifestações de incentivo que chegaram até a equipe.
Para Débora, essa presença mudou o significado do recorde. “Esse sonho começou sendo meu, mas deixou de ser só meu durante esses sete dias. Teve gente que veio aqui todos os dias, gente que correu ao meu lado, que gritou meu nome, mandou mensagem e torceu por cada quilômetro. E, atrás de mim, havia uma equipe enorme trabalhando dia e noite. Eu não teria conseguido fazer isso sozinha. Esse recorde é de cada pessoa que esteve comigo, da minha equipe, de quem acreditou nesse projeto e de todo mundo que torceu. É uma conquista nossa.”
Cerca de 110 profissionais participaram da operação, entre médicos, fisioterapeutas, enfermeira, nutricionista, treinador, técnicos, árbitros, profissionais de apoio e voluntários, em sistema de revezamento durante as 24 horas do dia.
A coordenadora geral do desafio, Magda Chagas, acompanhou o planejamento e a execução da operação. “Foram meses de preparação para que, durante essas 168 horas, a Débora tivesse suporte em todas as áreas. Uma operação como essa exige decisões o tempo inteiro: alimentação, descanso, atendimento médico, fisioterapia, ritmo de prova, arbitragem, estrutura. Tínhamos cerca de 110 pessoas envolvidas e todas sabiam exatamente por que estavam ali. Quando ela ultrapassou os 846,16 quilômetros, foi impossível não lembrar de cada pessoa que ajudou a construir esse resultado.”
O Beiramar como palco de uma conquista mundial - O recorde foi conquistado no mesmo lugar em que, sete anos antes, Débora havia chegado aos 800,61 quilômetros. Em 2019, ela deixou o Beiramar Shopping com os recordes brasileiro e sul-americano. Neste domingo, voltou a cruzar uma marca histórica no empreendimento, desta vez, a mundial.
Durante uma semana, quem passou pelo shopping acompanhou de perto uma rotina normalmente restrita aos bastidores do esporte de alto rendimento. Viu as horas de corrida, as pausas para recuperação, os momentos de dificuldade e a reação da atleta. Muitos retornaram ao longo da semana para conferir a quilometragem e incentivar Débora.
Para Juliana Duarte, gerente de Marketing do Beiramar Shopping, a mobilização criada em torno da tentativa de recorde mostrou a capacidade do esporte de aproximar as pessoas. “Durante sete dias, acompanhamos uma história acontecer diante dos nossos olhos. Vimos pessoas que chegaram ao shopping sem conhecer a Débora pararem para entender o desafio e, dias depois, voltarem para saber quantos quilômetros ela já havia percorrido. O público passou a torcer, correr ao lado dela e comemorar cada avanço. Isso diz muito sobre o que acreditamos para o Beiramar: ser um lugar onde as pessoas não vêm apenas para consumir, mas também para viver experiências, se encontrar e fazer parte de histórias. Ter sido a casa da Débora durante esses sete dias e o lugar onde ela conquistou um recorde mundial é algo que passa a fazer parte também da história do Beiramar.”
A movimentação foi acompanhada também pelos lojistas e colaboradores, que conviveram durante toda a semana com a estrutura montada para o desafio e com a crescente torcida em torno da esteira. Para Maria Claudia Borges, presidente da Associação de Lojistas do Beiramar Shopping, a participação do público foi um dos aspectos mais marcantes da semana. “Foi muito bonito perceber como uma conquista individual conseguiu mobilizar uma comunidade inteira. Ao longo dos dias, lojistas, colaboradores e clientes passaram a acompanhar a Débora, perguntar pela quilometragem e torcer por ela. Criou-se um sentimento de pertencimento muito forte. Quando ela bateu o recorde, às 9h14 deste domingo, a comemoração não era apenas de quem estava ao redor da esteira naquele momento. Havia muita gente acompanhando essa história desde o início e que, de alguma forma, também se sentiu parte dela. Para nós, receber um acontecimento dessa dimensão dentro do Beiramar é motivo de muito orgulho.”
A realização contou com patrocínio de Olympikus, LK Design Hotel, Supermercados Imperatriz Gourmet, Água Otimista, Altenburg e DaColônia Alimentos Naturais, que contribuíram para viabilizar a estrutura e a operação mantidas durante os sete dias de desafio. A iniciativa também teve caráter solidário, com arrecadação de ração destinada a entidades de proteção animal.
Às 9h14 deste domingo, quando o marcador ultrapassou os 846,16 quilômetros, sete anos separavam Débora daquela primeira tentativa no mesmo Beiramar Shopping. Em 2019, faltaram quilômetros para alcançar o recorde mundial. Em 2026, ela voltou para buscá-los.
Ao final das 168 horas, com XXX quilômetros percorridos, Débora Simas deixou a esteira como a nova recordista mundial feminina da modalidade.
168 horas até o recorde
Início do desafio:
24 horas: 143,51 kms
48 horas: 270,32 kms
72 horas: 381,42 kms
96 horas: 517 km
120 horas: 619,32 km
144 horas: 730,60 km
Quebra do recorde mundial: 846,16 km, às 9h14 de domingo (9)
168 horas | quilometragem final: 866,21 km
Recorde anterior: 846,16 km — Emma Timmis (Nova Zelândia), 2024
Novo recorde mundial: 866,21 km — Débora Simas (Brasil), 2026
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