Com um depoimento contundente, que apontou os altos índices de feminicídos em Santa Catarina, Carolline Sardá tomou posse como deputada na Assembleia Legislativa, nesta quarta-feira (15). Primeira suplente do PSOL, a nova parlamentar assume a vaga do deputado ambientalista Marcos José de Abreu - Marquito, que se licenciou do cargo para se dedicar à pré-campanha à reeleição.
O evento político movimentou os espaços em torno do plenário da Alesc, prestigiado por lideranças políticas, feministas de várias gerações e representantes de movimentos sociais. Na tribuna, logo após assinar o termo de posse, a parlamentar fez um pronunciamento emocionante e comprometido na defesa de direitos, bem como em dar continuidade às pautas do mandato agroecológico de Marquito.
"O meu mandato será um mandato das mulheres, da juventude, da periferia, das pessoas com deficiência, dos povos originários, da população negra, dos professores, estudantes, de quem faz cultura, nas rua, nas batalhas de rima e poesia, da classe trabalhadora e de todo mundo que não tem um microfone dentro dessa Assembleia", garantiu Carolline Sardá.
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A seguir, a íntegra do discurso:
’”Boa tarde senhoras e senhores deputados, senhor presidente.
Gostaria de começar agradecendo por estar ocupando esse espaço e a cada pessoa que me trouxe até essa cadeira, hoje.
Agradecer aos meus eleitores, ao meu partido PSOL, ao deputado Marquito, ao Movimento de Mulheres Olga Benário, aos movimentos sociais que ocupam essa galeria hoje, à minha família, que está aqui, aos meus amigos e a quem está nos assistindo em casa, que amplificou meu trabalho além das ruas, mas também nas redes.
Antes de falar sobre os próximos caminhos deste mandato, quero contar um breve relato.
Em 2016, durante a madrugada, uma jovem que tinha acabado de sofrer uma violência sexual, buscou uma delegacia, mas a encontrou de portas fechadas. Na manhã seguinte, foi na mesma delegacia, no horário que funcionava, e, ao ser atendida, foi revitimizada, quem lhe atendeu perguntou se não tinha "medo de acabar com a vida de um pobre homem por um mero arrependimento", questionou a roupa que usava e, pior, por que essa jovem queria denunciar, se ela não estava visivelmente machucada?
Essa jovem… era eu, mas poderia ser a história de qualquer mulher que encontrou a porta fechada de uma delegacia e que, depois que encontrou uma porta aberta, se sentiu violentada pela segunda vez.
Agora, em 2026, depois de uma década de ter seguido o rumo do combate à violência contra a mulher por ter sofrido uma violência, de muita luta, organização e estudo, estou assumindo como deputada estadual de Santa Catarina.
É uma responsabilidade enorme, mas estudei e lutei muito durante todos esses anos para este momento.
Vai ser uma honra fazer parte da Bancada Feminina desta Casa e atuar ao lado das deputadas para defender a vida das mulheres do nosso estado, porque nós, deputadas e deputados, sabemos que a violência da mulher não escolhe partido ou ideologia.
Inclusive, falando nisso, já quero entrar nas pautas que serão defendidas neste mandato, que certamente seguirão também as pautas do Marquito, que abriu esse caminho pra que eu pudesse seguir a luta aqui dentro enquanto ele segue em outra frente.
O meu mandato será um mandato das mulheres, da juventude, da periferia, das pessoas com deficiência, dos povos originários, da população negra, dos professores, estudantes, de quem faz cultura, nas rua, nas batalhas de rima e poesia, da classe trabalhadora e de todo mundo que não tem um microfone dentro dessa Assembleia.
Agora nós teremos.
Vamos continuar construindo política popular, rodando Santa Catarina e dialogando olho no olho com o povo catarinense.
Vocês que estão me assistindo agora vão saber de mim porque eu vou estar na cidade de vocês e o que eu ouvir na rua virará projeto de lei, requerimento, audiência pública e disputa aqui dentro pelo direito de vocês.
Ontem mesmo, senhoras deputadas, deputados, e senhor presidente, eu estava na câmara de vereadores de São José, numa reunião pública sobre feminicídio.
Só este ano, entre janeiro e julho, Santa Catarina já soma 30 feminicídios, 36% a mais que no mesmo período de 2025. O dado é do próprio Observatório de Violência Contra a Mulher.
Por isso, reivindica-se o aumento de delegacia da mulher 24h, porque está no papel, na lei, mas na prática a DPCAMI só foi desmembrada e não atende todos os estados.
Hoje Santa Catarina tem 32 DPCAMIs para 295 municípios. O próprio delegado-geral da Polícia Civil admitiu, em março, que pelo menos 12 cidades com mais de 50 mil habitantes ainda não tem nenhuma.
Falta delegacias em mais regiões do estado, em várias cidades do interior as mulheres precisam se deslocar pra outras cidades, pra conseguir denunciar, algumas inclusive são proibidas pelo marido ou companheiro de aprender a dirigir e ter CNH, então nem dirigir podem, tem que ir de ônibus e ainda no horário que estão abertas as delegacias, que muitas vezes é o horário que essas mulheres também trabalham.
Em quase 91% dos feminicídios registrados no estado, a vítima nunca tinha um boletim de ocorrência anterior contra o agressor. E na maioria desses casos, era alguém próximo, um companheiro ou ex companheiro,até um stalker.
Além de espaços para essas mulheres poderem denunciar, faltam espaços para essas mulheres se abrigarem da violência, inclusive com seus filhos, faltam casas-abrigo, nosso estado não tem uma Casa da Mulher Brasileira, gente, é um absurdo pensar que mulheres não tem pra onde correr com seus filhos em casos que ela é dependente financeiramente do marido.
Precisamos fortalecer a Rede Catarina, não dá pra ter, como ouvi em São José, 3 policiais para 680 medidas protetivas, imagina pegar eu e mais dois deputados aqui para fazer ronda em 680 casas por dia para garantir que as mulheres continuem vivas, precisamos de mais efetivo para patrulha de medida protetiva e casas-abrigo.
Por isso que tem mulher morrendo com medida protetiva na bolsa, entendem? Não tem efetivo o suficiente pra fazer ronda e nem lugar pra ela se abrigar além do endereço que o agressor já conhece. Não tem casa da mulher brasileira.
Além disso, profissionalização e treinamento voltado para atender vítimas de violência, não apenas dos agentes, mas também trazendo pra dentro das delegacias psicólogos, acessibilidade e intérprete de libras.
Pensem como uma mulher com deficiência faz uma denúncia sem acessibilidade em uma delegacia, como ela se desloca até lá e não tem rampa, não tem intérprete, não tem acessibilidade, é sobre isso que estamos falando aqui.
E falando em mulher com deficiência sem acessibilidade para denunciar, a violência de gênero também envolve o caso de Sonia Maria, mulher negra e com deficiência auditiva, que foi resgatada de condições análogas a escravidão e teve que retonar para a casa da familia que a explorou durante anos sem pagar pelo seu trabalho doméstico.
Pensem também como uma mulher indígena denuncia violência, quando invadem seu território, violentam verbalmente suas cacicas, sua luta histórica e originária.
É sobre atuar em todas as estruturas reais que protegem a vida das mulheres. E nosso mandato vai atuar diretamente nisso.
Precisamos proteger desde a que conseguiu a medida protetiva até a que não consegue sair do ciclo da violência para ir denunciar porque tem medo de retaliação.
Por isso, vou defender durante meu mandato políticas que sejam voltadas para essas questões e dialogarei com todos os deputados desta casa para avançarmos juntos contra a violência de gênero e pela vida das mulheres.
Então pra fechar, saibam que esse mandato nasce com um compromisso concreto: eu vou cobrar, com dado na mão, cada equipamento de proteção à mulher deste estado.
E onde a estrutura não existe, eu vou lutar com todas as minhas forças e ferramentas enquanto deputada estadual pra ela existir.
Vim para lutar pelo direito mais fundamental de uma mulher e de qualquer cidadão desse estado: o direito à vida.
Não aceitarei que Santa Catarina, o único estado no Brasil com nome de mulher, tenha a vida das nossas Catarinas ceifadas.
Como diz Audre Lorde: "Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”’.
Saiba mais sobre Carolline Sardá - Natural de Canoinhas, é publicitária, historiadora em formação pelo Mackenzie e criadora de conteúdo dedicada à história das mulheres, à política e aos direitos femininos. Sua trajetória nasce do encontro entre comunicação estratégica e compromisso com a democratização do conhecimento.
Iniciou sua carreira na publicidade e no marketing digital, especializando-se em estratégia, posicionamento e construção de audiência. Ao perceber como o conhecimento histórico e político circulava de forma restrita à academia, decidiu transformar sua atuação profissional em uma ponte entre pesquisa e público amplo. Foi assim que passou a produzir conteúdos educativos nas redes sociais, traduzindo debates complexos sobre gênero, raça, classe e poder para uma linguagem acessível e didática.
Criadora do projeto Clube de Leitura Feminista, construiu uma das maiores comunidades digitais de leitura política do país, reunindo milhares de mulheres em encontros mensais, formações, debates e aulas. Também está à frente do quadro Mulheres na História, no qual resgata trajetórias apagadas, analisa processos históricos e conecta passado e presente a partir de uma perspectiva feminista marxista.
Seu trabalho articula educação política, memória histórica e formação crítica. Ao abordar temas como sufrágio feminino, direitos reprodutivos, ditadura, legislação, organização coletiva e movimentos sociais, Carolline parte da historiografia produzida por pesquisadoras feministas e constrói narrativas que ampliam o acesso ao conhecimento.
Além da atuação como criadora de conteúdo, desenvolve projetos educativos, ministra palestras, produz formações e colabora com iniciativas voltadas à educação política e comunicação estratégica. Sua produção alcança centenas de milhares de pessoas nas redes sociais e se organiza em um ecossistema que une comunidade, formação e mobilização, sempre com o compromisso de fortalecer a consciência histórica e a organização coletiva das mulheres.

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