Na sala, na cozinha, nos bares, consultórios, repartições e até nos quartos, a televisão tornou-se presença constante na vida brasileira. Durante décadas, o país acordou, almoçou, jantou e dormiu diante da telinha. Um membro invisível da família, diante do qual milhões se calavam para ouvir a voz que vinha de longe.
A televisão diverte, entretém e informa. Mas também influencia comportamentos, dita tendências e molda percepções com impressionante eficiência. Desde a década de 1970, a TV aberta exerceu enorme poder sobre a formação cultural do país. Em muitos lares, substituiu o hábito da leitura, enfraqueceu o diálogo familiar e passou a funcionar como referência moral e emocional de milhões de brasileiros.
Nesse processo, as novelas foram a ferramenta mais poderosa. Herdaram o fascínio das antigas radionovelas, mas com alcance ainda maior: voz, imagem, trilha sonora, emoção e repetição diária com horário marcado.
O Brasil inteiro parava diante da televisão. Ruas esvaziavam. Comércios encerravam mais cedo. O país vivia em torno das narrativas produzidas por poucas emissoras e por um pequeno grupo de autores, muitos deles ligados a correntes ideológicas claramente identificadas com a esquerda cultural.
O problema se agravou quando praticamente apenas uma visão cultural passou a dominar o principal veículo de comunicação do país.
Pouco a pouco, milhões foram condicionados sem perceber, porque as pessoas raramente resistem ao que as diverte.
Durante décadas, o brasileiro médio recebeu a mesma linha de pensamento embalada em humor, dramaturgia e entretenimento. Tradição passou a ser retratada como atraso. Religiosidade virou caricatura. Autoridade tornou-se sinônimo de opressão. A malandragem ganhou charme. O relativismo passou a ser tratado como modernidade.
Ao mesmo tempo, a lógica comercial descobriu que degradação moral dá audiência. Escândalo vende. Erotização vende. Conflito familiar vende. E assim, interesses comerciais e tendências ideológicas caminharam lado a lado.
Enquanto isso, boa parte da sociedade permanecia desatenta ao avanço de uma ocupação cultural mais ampla, que também alcançou setores da educação, das artes e da produção intelectual. A disputa pelo poder deixou de ocorrer apenas nas urnas e passou a acontecer no imaginário popular.
Hoje, o resultado aparece diante de todos: famílias fragmentadas, banalização do vulgar, empobrecimento do debate público, culto à celebridade e crescente dificuldade de diálogo entre gerações.
Mas algo mudou.
A televisão perdeu o monopólio da narrativa. As plataformas digitais quebraram a centralização da informação. O cidadão comum, com mídia própria, passou a produzir conteúdo, questionar versões oficiais e confrontar discursos antes intocáveis.
E talvez esteja aí a maior transformação política do Brasil contemporâneo.
Muitos líderes e projetos políticos nasceram e cresceram sob a proteção de uma hegemonia cultural construída ao longo de décadas. Agora, enfrentam uma realidade diferente: um ambiente descentralizado, imprevisível e menos controlável.
Após tanto tempo, o volume de evidências — com sucessivos escândalos de corrupção, soltura de réus confessos, resultados ruins e promessas não cumpridas — tornou-se grande demais para ser ignorado.
Então, o monopólio enfraquecido já não consegue impor narrativas, e o eleitor começa a enxergar aquilo que estava diante dos seus olhos, mas não conseguia ver.
Como nunca antes na história deste país, a verdade está em nossas mãos. Literalmente.
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