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Sexta-feira, 26 de Junho de 2026

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CENSO E BOM SENSO

Por Jaime Telles

CENSO E BOM SENSO
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Todo homófono faz pensar. Então pensemos:

Dado estatístico é matéria-prima da boa administração. Vai muito além de detalhes técnicos ou simples números.

Sem estatística confiável, o gestor governa no escuro.

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Países desenvolvidos transformam informação em estratégia. Contam pessoas, medem comportamentos, acompanham tendências, projetam cenários e corrigem rotas. Sabem que números bem interpretados economizam tempo, dinheiro e poupam vidas.

No Brasil, porém, a vida pública ainda segue no improviso, no palpite e na pressão do momento. Muitas cidades operam com levantamentos desatualizados e informações fragmentadas entre setores que sequer se comunicam adequadamente.

Mais constrangedor ainda é perceber que muitos planos de governo municipais nascem sem diagnóstico sério da realidade local. Em inúmeros casos, documentos inteiros são reaproveitados de campanhas anteriores — às vezes até copiados de outros municípios, com realidades completamente diferentes.

Primeiro surge a vontade de vencer a eleição. Só depois, se houver tempo, tenta-se compreender o município que se pretende administrar.

Promete-se aquilo que não se conhece e a população paga caro por isso.

Sem indicadores reais de saúde, educação, arrecadação, infraestrutura ou perfil socioeconômico da população, a gestão torna-se reativa. Corre-se atrás da urgência do dia, apaga-se incêndio político e improvisa-se continuamente.

O país deveria possuir um modelo integrado de informações, conectando União, estados e municípios através de dados padronizados, aferíveis e permanentemente atualizados. Porque números apontam rumos.

Mas frequentemente cada setor funciona como uma ilha.

Talvez exista até certo receio dos números. Porque números expõem desperdícios, prioridades distorcidas e baixa eficiência administrativa.

Estatística séria evita maquiagem política.

Mas o problema também é cultural. O Brasil possui baixíssima educação estatística. Nosso modelo de ensino pouco trabalha interpretação de dados, percentuais, projeções ou probabilidades. Isso abre espaço para manipulações, manchetes enganosas e discursos emocionais sem sustentação concreta.

A cada dez anos, o país realiza o Censo Demográfico, uma das tarefas mais importantes da República. Seus dados influenciam planejamento público, distribuição de recursos e decisões estratégicas em todas as esferas de governo. Justamente por isso, o Censo deveria ser tratado como missão de altíssimo interesse nacional, com elevada valorização técnica e profissional. Dinheiro há. Sempre houve.

O que falta é estrutura técnica capaz de transformar informação em planejamento duradouro.

Enquanto empresas privadas analisam comportamento de consumo em tempo real, muitos órgãos públicos ainda enfrentam dificuldade até para consolidar informações básicas.

Muitos gabinetes exibem enormes fotografias panorâmicas que revelam uma verdade por percebida: boa parte do progresso visível vem pela iniciativa privada. O poder público, frequentemente, limita-se ao paliativo, ao remendo e ao improviso administrativo.

Em plena era da informação, muitos administradores continuam escrevendo a lápis.

 

FONTE/CRÉDITOS: Por Jaime Telles
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