O El Niño deve trazer um cenário de chuvas acima da média para áreas da Região Sul nos próximos meses, mas a maior oferta de chuva não elimina a necessidade de discutir como a água é utilizada. Segundo o terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos como INPE, INMET, ANA e CEMADEN, há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre setembro e novembro, enquanto a previsão climática aponta volumes de chuva acima da média em áreas do Sul.
O cenário reforça uma questão que vai além dos períodos de estiagem: não basta pensar em disponibilidade de água; é preciso também olhar para a forma como ela é utilizada. Em residências, condomínios e empresas, parte da água consumida diariamente é destinada a atividades que não exigem padrão potável e poderia, com tratamento e sistemas adequados, ser reaproveitada.
“Quando falamos em água, normalmente pensamos apenas em quanto temos disponível. Mas existe uma segunda pergunta tão importante quanto essa: para quais atividades realmente precisamos de água potável? O reúso parte justamente dessa lógica, aproveitando melhor um recurso que já está dentro do sistema”, explica Roberto Lopes, diretor de Novos Negócios do Grupo Eko Bee e responsável pela H2Eko.
1. Água do banho pode ter uma segunda utilização
A chamada água cinza, proveniente de chuveiros, lavatórios e máquinas de lavar roupas, pode ser coletada e tratada para usos que não exigem padrão potável. Entre as possibilidades estão descargas sanitárias, irrigação de jardins e limpeza de áreas comuns.
A diferença está em não simplesmente armazenar e reutilizar a água de qualquer maneira, mas contar com sistemas apropriados de tratamento, capazes de tornar o recurso adequado para a finalidade pretendida.
2. A água da máquina de lavar não precisa necessariamente terminar no ralo
Máquinas de lavar roupas estão entre as fontes de geração de água cinza. Dependendo do sistema utilizado e do tratamento aplicado, esse volume pode ser direcionado para atividades que não demandam água potável.
Em empreendimentos maiores, como condomínios, a quantidade acumulada ao longo do dia pode tornar esse tipo de reúso ainda mais relevante, já que o volume gerado por dezenas ou centenas de unidades pode ser aproveitado coletivamente.
3. Água de chuva também pode entrar na estratégia
A captação de água da chuva é outra alternativa para reduzir a utilização de água potável em determinadas atividades. O recurso pode ser destinado, por exemplo, à irrigação e à limpeza, desde que sejam observados os critérios técnicos e sanitários adequados para armazenamento e utilização.
Para Roberto Lopes, a lógica é ampliar as fontes disponíveis para cada tipo de uso. “Não se trata de substituir a água potável indiscriminadamente, mas de entender que diferentes atividades podem ser atendidas por diferentes fontes. Quando fazemos essa separação de maneira planejada, conseguimos reduzir o consumo de água tratada”, explica.
4. Condomínios podem transformar o reúso em uma solução coletiva
Em condomínios, o potencial de reaproveitamento aumenta justamente pela escala. Água utilizada em diferentes apartamentos pode ser direcionada para um sistema coletivo de tratamento e posteriormente utilizada em áreas comuns e outras aplicações não potáveis.
Além de ampliar o volume que pode ser reaproveitado, a adoção de um sistema coletivo permite organizar o processo de coleta, tratamento e distribuição da água de acordo com as necessidades do empreendimento.
5. Empresas também podem separar água por finalidade
O reúso não se limita ao ambiente residencial. Empresas, comércios, hotéis, indústrias e outros empreendimentos podem avaliar onde utilizam água potável e quais processos poderiam ser atendidos por água de reúso.
A ideia é criar uma espécie de “ciclo interno” da água, no qual o recurso passa por tratamento e volta ao empreendimento para uma nova utilização, em vez de ser descartado depois de um único uso.
Mais chuva não significa que a gestão pode ficar em segundo plano
O cenário previsto para o Sul reforça justamente essa mudança de perspectiva. O INMET prevê chuvas acima da média na região em setembro, enquanto o Painel El Niño aponta a mesma tendência para o trimestre setembro-outubro-novembro.
Ao mesmo tempo, o fenômeno pode trazer mudanças na distribuição das chuvas e diferentes impactos entre regiões. Por isso, a discussão sobre reúso pode ser feita independentemente de uma situação imediata de escassez. A ideia é utilizar melhor a água disponível, reduzindo o uso de água potável onde ela não é necessária e criando sistemas mais preparados para diferentes condições climáticas.
“Uma gestão eficiente da água não deveria começar quando chega uma crise. O planejamento é justamente o que permite que condomínios, empresas e cidades estejam mais preparados para cenários diferentes, seja de estiagem, seja de excesso de chuva. O reúso é uma das ferramentas que permitem fazer essa mudança”, finaliza Lopes.
Sobre Roberto Lopes - Roberto Lopes é Diretor de Novos Negócios do Grupo Eko Bee e responsável pela H2Eko, sistema de reutilização de água cinza, nova frente da companhia voltada à reutilização inteligente da água. Cofundador da Eko Bee, participa desde a origem da expansão do grupo em soluções ambientais para condomínios, empresas, comércios e indústrias.
Com mais de 25 anos de experiência como empresário e passagem por posições executivas, atua no desenvolvimento de iniciativas que conectam eficiência operacional, redução de custos e sustentabilidade. À frente de Novos Negócios, lidera a ampliação do portfólio do grupo, incorporando soluções alinhadas aos desafios urbanos e à gestão integrada de recursos naturais.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se