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ENTREVISTAS

Marcos Antônio Zordan, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc): “o desafio de reter os jovens no campo”.
Entrevista
Publicado em Abr 10, 2010

MARCOS A. BEDIN
MB Comunicação Empresarial/Organizacional


O futuro da agricultura brasileira e da vasta cadeia do agronegócio dependerá de manter a juventude no campo. Este é um desafio para o qual se voltam as cooperativas. “Nosso objetivo é mantê-la no campo, satisfeita e motivada, disposta a agregar tecnologia e produzir com eficiência. Nosso dever é lutar pela preservação do modelo agrário catarinense, notabilizado pela densa ocupação minifundista e pela intensa produção”, assinala o presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc), Marcos Antônio Zordan.

O cooperativismo é essencial para a economia catarinense e os jovens são essenciais para a perpetuação do cooperativismo. Um terço dos catarinenses está diretamente relacionado ao cooperativismo. Em Santa Catarina funcionam 255 cooperativas de 12 diferentes ramos (agropecuário, consumo, crédito, educação, especial, habitação, infra-estrutura, mineração, produção, saúde, trabalho e transporte) que movimentam R$ 12 bilhões por ano. Isso equivale a 12% do PIB do Estado. Juntas, elas reúnem 860.000 famílias associadas que representam 2,5 milhões de pessoas. Para o desenvolvimento de suas atividades, as sociedades cooperativas empregaram diretamente mais de 30.000 pessoas.
        
Nesta entrevista, o presidente Marcos Antonio Zordan e o superintendente Geci Pungan do sistema Ocesc/Sescoop (Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina e Serviço de Aprendizagem do Cooperativismo) abordam essa complexa questão:
 
Qual deve ser a preocupação das cooperativas em relação aos jovens?
 
As cooperativas e demais instituições que atuam no universo do setor primário precisam saber o que quer o jovem rural; quais as suas expectativas para o futuro; o que fazer para satisfazer suas necessidades e aspirações a fim de mantê-lo como um dos protagonistas do rico e multifacetado universo da agroeconomia catarinense.
 
E o que, de fato, querem os jovens rurais?
 
O que o jovem rural mais quer é ser ouvido e respeitado. Ouvido em seus anseios e desejos; respeitado em suas opiniões e posições. O jovem quer educação de qualidade, oportunidade de atualização, recreação e lazer; quer falar e ser ouvido, valoriza o cooperativismo e não quer só participar  mas, especialmente,  oportunidade de ocupar postos de relevância e comando. Esses resultados orientam a atuação das cooperativas e se transformaram em exitosos programas de ação.
 
Existem, ainda, muitas diferenças entre os jovens urbanos e os jovens rurais?
 
Jovens do campo e da cidade compartilham preferências – a maioria delas, é claro, ditadas pela força da mídia – no modo de vestir e de falar, nos ídolos do momento, nos times preferidos, nas bandas musicais, nos filmes  etc. O primeiro efeito dessa homogeneização não é somente a expansão dos horizontes do jovem rural, mas, essencialmente, a criação de novas necessidades e o surgimento de novas expectativas.
 
Qual é o papel dos meios de comunicação nesse processo?
 
A expansão dos meios de comunicação de massa, especialmente da mídia eletrônica (Rádio e TV), experimentada a partir da década de 1980, proporcionou absoluta integração territorial. Todos os produtos da indústria cultural consumidos nas cidades constituem-se, rigorosamente, nas mesmas mensagens consumidas pela população rural. Os veículos da mídia impressa – jornais e revistas especializadas – chegam, hodiernamente, com regularidade às famílias rurais. O nível de informação sobre a atualidade brasileira e mundial das comunidades urbanas e rurais, hoje, equivale-se.
 
Que tipo de iniciativa existe no âmbito das cooperativas para manter os jovens rurais no campo?
 
Através do Serviço de Aprendizagem do Cooperativismo (Sesccop/SC), as cooperativas têm a sua disposição vários programas. O CooperJovem, dirigido às crianças do ensino fundamental, divulga a cultura da cooperação, cooperativismo e ajuda mútua. O Jovem liderança cooperativista, dirigido aos filhos de associados de cooperativas com idade de 16 a 24 anos, transmite os ensinamentos básicos do relacionamento humano, noções de administração de negócios, planejamento e elaboração de projetos e cooperativismo. O Jovem aprendiz proporciona cursos profissionalizantes nas mais diversas áreas, inclusive com estágio obrigatório em cooperativas. O QT Rural proporciona à família de produtores associados a organização das propriedades, planejamento das atividades agrícolas, registros de receitas e despesas, com noções de custo de produção.
Além disso, promovem-se eventos dirigidos às mulheres, esposas e filhas de cooperados que disseminam informações específicas a esse público-alvo nas áreas de saúde, relacionamento familiar, atividades econômicas específicas, mesclando com a cultura do cooperativismo. Destaque-se que, em paralelo a estas, há outras atividades empreendidas pelas próprias cooperativas.
 
Desde quando foram implantadas essas iniciativas?
 
Algumas das iniciativas tem mais de dez anos, outras são mais recentes, cinco e dois anos. A abrangência é crescente em conformidade às adesões de cooperativas e disponibilidade de recursos financeiros e operacionais para sua execução.
 
Quais foram as cooperativas pioneiras nessas ações de retenção da juventude?
 
As Cooperativas pioneiras foram a CooperItaipu de Pinhalzinho, a Cooper A1 de Palmitos, a Cooper Auriverde de Cunha Porã, a CooperAlfa de Chapecó e a Cravil de Rio do Sul.
 
Quando começaram a surtir efeito? Quais os resultados concretos?
 
Observam-se importantes mudanças em algumas propriedades, tanto em seu aspecto, como em relação a produtividade e evolução econômica positiva, nas quais, certamente há a influência dos apoios efetuados pelos programas  mencionados. Inexistem dados quantificativos uma vez que a dinâmica social é fortemente influenciada por fatores externos, como, mercado, sazonalidades, crises, estiagens e a própria mídia.
 
Qual o número de participantes e, deste, qual o percentual de jovens que efetivamente permanece na propriedade rural?
 
São milhares de participantes, considerando-se todos os programas. Pelo QT Rural já foram mais de 8 mil famílias capacitadas. O Jovem liderança cooperativista teve 210 participantes. O CooperJovem reuniu mais de 4 mil e os eventos para mulheres  cooperativistas somaram mais de 3.000.
 
Existe algum estudo com números do êxodo rural antes e depois das iniciativas?
 
Não há estudo específico, no âmbito da Ocesc e do Sescoop. Tanto o êxodo como a permanência de jovens em propriedades é uma constatação das próprias cooperativas.
 
Este jovem que fica quer mudar o modelo das propriedades rurais, isto é, com sua retenção é possível profissionalizar o campo?
 
Certamente os jovens que permanecem no campo assim o fazem após vivenciar o conflito entre os "atrativos" da cidade e a tranquilidade, embora dura, da vida do campo. Uma vez absorvidos ensinamentos em que evidencia-se a possibilidade de transformar a produtividade nas propriedades em renda que atenda às suas necessidades, poderá convencer-se pela permanência em seu "habitat" natural. A gestão profissionalizada, controles de custos, organização de atividades em paralelo às técnicas de produção demonstram ser possível viabilizar economicamente uma propriedade agrícola, ainda que pequena.
 
Qual foi o papel da OCESC e do SECOOP nesse esforço?
 
A Ocesc e o Sescoop dedicam-se a estimular as cooperativas para que intensifiquem os programas. Auxiliam na elaboração das propostas e dão o suporte financeiro para a concretização das atividades de capacitação. As cooperativas, através de seus técnicos e com a contratação de profissionais ou entidades especializadas, têm o papel da execução e interlocução com o sistema Ocesc e Sescoop sobre o acompanhamento, melhorias, e ajustes que sejam necessários. 





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