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FÁBULA DAS ESTAÇÕES

Por  Jaime Telles

FÁBULA DAS ESTAÇÕES
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Ao encerrar seu turno, no calendário dos homens, irmão Inverno contemplou a ramagem que ganhava aspecto verdejante e sorriu como quem diz, até logo.

Assumindo o posto, Irmã Primavera saudou seu antecessor, com igual gentileza, indagando-lhe sobre a experiência que se expirava. Irmão Inverno declarou-se satisfeito, porém preocupado.

- Tornei a soprar brisas gélidas em rostos desvalidos, impelindo a humanidade à ação benfazeja. Alegrei-me com valorosas campanhas aqui e acolá, além de gestos isolados na direção do bem comum. Meu regozijo foi maior diante daqueles que se deram sob os mantos do silêncio e da discrição. Devo, no entanto, preveni-la, amada irmã, que nosso labor haverá de prolongar-se por muitas eras.

Surpresa diante do severo lembrete, irmã Primavera retorquiu:

- Teria sido vã, por acaso, a ferocidade do irmão Verão ao provocar trincas na crosta do solo fértil e o minguar das águas? Fora inócua, então, a luta do irmão Outono ao desnudar árvores frondosas, derribando folhas em alternadas noites de clima instável? Que poderei eu fazer? Sou a mais frágil das estações. Pouco influencio os homens nas mudanças que lhe são necessárias.

Com autoridade e mansidão, irmão Inverno, asseverou:

- Querida irmãzinha, faça o que sempre lhe coube fazer: Acentua as cores e os movimentos aos que podem ver; expande as sonoridades a quem é facultado ouvir; aprimora os perfumes a quem o olfato é permitido; avelude as texturas aos que podem tatear. Tua missão é convencer pela força sutil da beleza. Faça perceptível o infinito amor do Pai, no quarto de ano que lhe fora confiado. Faça-o com sua disposição contumaz, pois o Criador jamais desiste de seus filhos, por mais que demorem as eras e por mais que tenham que retornar à faina, de necessárias corrigendas e custosa evolução.

E afastando-se calmamente, o Inverno ainda contemplou, num olhar de despedida, sua motivada irmã Primavera em sua missão primeira do novo ciclo: libertar do casulo discreta crisálida, felicitando-a por sua forma alada, com a qual ganhou as alturas.

FONTE/CRÉDITOS: Por  Jaime Telles

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