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Sexta-feira, 31 de Julho 2026
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Milhões de brasileiros dizem que não sabem usar IA. E ninguém está pesquisando como.

Existe uma leitura confortável para o fim dos tutoriais de inteligência artificial: a de que eles sumiram porque as pessoas aprenderam

Milhões de brasileiros dizem que não sabem usar IA. E ninguém está pesquisando como.
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As buscas por “o que é ChatGPT” e “como usar o ChatGPT” caíram mais de 60% em doze meses. Dados oficiais do Cetic.br mostram que 68% dos usuários de internet no Brasil ainda não usam inteligência artificial — e que, entre os de menor escolaridade, dois terços apontam a falta de habilidade como motivo. 

Existe uma leitura confortável para o fim dos tutoriais de inteligência artificial: a de que eles sumiram porque as pessoas aprenderam. É a explicação natural quando uma tecnologia amadurece — ninguém mais procura “como usar e-mail”.

Os dados oficiais não permitem essa leitura.

O que caiu

Levantamos na Rank Certo doze meses de volume de busca dos termos que uma pessoa digita quando quer entender inteligência artificial pela primeira vez. Todos os seis caíram, e nenhum caiu pouco.

Buscas mensais no Google Brasil por termos de entrada em inteligência artificial, entre julho de 2025 e junho de 2026. Crédito: Rank Certo, com dados do Google Ads via DataForSEO.
Buscas mensais no Google Brasil por termos de entrada em inteligência artificial, entre julho de 2025 e junho de 2026. Crédito: Rank Certo, com dados do Google Ads via DataForSEO.
“Prompt chatgpt” saiu de 22.200 buscas mensais para 4.400 — queda de 80%. “Como usar o chatgpt” caiu 64%, de 18.100 para 6.600. “O que é chatgpt” caiu 63%. “O que é inteligência artificial” caiu 45%. Até “chatgpt grátis”, o termo de quem procura a porta mais barata, recuou um terço.

São as perguntas de quem nunca abriu a ferramenta: o que é isso, como funciona, como se usa, onde encontro sem pagar.

Quem ficou de fora

Em dezembro de 2025, o Cetic.br publicou o primeiro retrato oficial da adoção de inteligência artificial no país, dentro da pesquisa TIC Domicílios. São 27.177 domicílios visitados, 24.535 pessoas entrevistadas presencialmente, amostra construída sobre o Censo do IBGE.

O número de manchete foi positivo: 50 milhões de brasileiros de 10 anos ou mais já usam IA generativa, o equivalente a 32% dos usuários de internet. O que a média esconde é a distância entre os extremos.

Proporção de usuários de internet que utilizaram ferramentas de IA generativa, por perfil. Fonte: TIC Domicílios 2025, Cetic.br/NIC.br/CGI.br. Crédito do gráfico: Rank Certo.
Proporção de usuários de internet que utilizaram ferramentas de IA generativa, por perfil. Fonte: TIC Domicílios 2025, Cetic.br/NIC.br/CGI.br. Crédito do gráfico: Rank Certo.
Na classe A, 69% usam. Nas classes D e E, 16%. Entre quem tem Ensino Superior, 59%. Entre quem tem Ensino Fundamental, 17%. São 53 pontos percentuais separando o topo da base.

E o motivo declarado por quem está fora é o dado central desta reportagem: entre os não usuários com até o Ensino Fundamental, 65% alegam falta de habilidade. Não falta de acesso. Não falta de interesse. Não saber usar.

O cruzamento

Milhões de brasileiros dizem que não usam inteligência artificial porque não sabem usar. E a busca por “como usar o chatgpt” caiu 64%.

A porta de entrada não esvaziou porque todos entraram. Esvaziou porque quem não entrou parou de bater.

As janelas se encaixam. A coleta do Cetic.br foi feita entre março e agosto de 2025, exatamente quando os termos de iniciante ainda estavam no pico. O que o dado de busca acrescenta é o que aconteceu depois: doze meses de queda contínua nas perguntas de entrada.

A diferença importa para política pública. Uma barreira de acesso se resolve com infraestrutura. Uma barreira de interesse se resolve com divulgação. Uma barreira de habilidade em quem já parou de procurar não se resolve sozinha — depende de formação, e formação não acontece porque a tecnologia ficou popular.

Enquanto isso, quem está dentro aprofunda

No mesmo período em que as perguntas de iniciante caíram, as de quem já opera a ferramenta cresceram.Buscas mensais no Google Brasil por termos de uso avançado, mesma janela. Note a escala, muito menor que a do primeiro gráfico. Crédito: Rank Certo, com dados do Google Ads via DataForSEO.

Buscas mensais no Google Brasil por termos de uso avançado, mesma janela. Note a escala, muito menor que a do primeiro gráfico. Crédito: Rank Certo, com dados do Google Ads via DataForSEO.
“Como criar prompts” subiu 129%. “IA para trabalho”, 129%. “Melhores prompts”, 86%. O volume é pequeno — algumas centenas de buscas mensais contra dezenas de milhares do outro grupo. Mas a direção é oposta e consistente.

Dentro do mesmo assunto, na mesma janela, duas populações se movem em sentidos contrários. Uma está refinando o uso. A outra parou de perguntar.

O que os dados não dizem

Busca mede intenção, não aprendizado. A queda nos termos de iniciante é compatível com pelo menos três explicações: quem queria aprender já aprendeu; quem não aprendeu desistiu; ou as dúvidas passaram a ser tiradas dentro da própria ferramenta, sem passar pelo Google. As três podem estar acontecendo ao mesmo tempo, e nenhuma delas é descartável.

Por isso este levantamento se apoia na TIC Domicílios para o retrato da população e usa o dado de busca apenas para o movimento posterior. Uma pesquisa domiciliar presencial mede quem usa; o volume de busca mede para onde a atenção foi.

Vale registrar também o que ficou de fora. Consideramos incluir a evolução de buscas por ferramentas específicas, mas o volume de uma delas salta de 9,1 milhões em agosto para 45,5 milhões em setembro de 2025 — um salto que tem assinatura de agrupamento de palavras-chave, não de comportamento. É a regra que seguimos na Rank Certo desde que um caso parecido nos custou uma tarde de checagem: número que não bate em duas fontes independentes não entra no estudo.

 

FONTES

TIC Domicílios 2025 — Cetic.br/NIC.br/CGI.br. Coleta presencial entre março e agosto de 2025, 27.177 domicílios e 24.535 indivíduos de 10 anos ou mais. Divulgação em 9 de dezembro de 2025.

“How People Use ChatGPT” — Chatterji, Cunningham, Deming, Hitzig, Ong, Shan e Wadman. NBER Working Paper 34255, setembro de 2025. nber.org/papers/w34255

Volume de busca do Google Ads e índice do Google Trends, via DataForSEO. Brasil, português, julho de 2025 a junho de 2026. Coleta: 29 de julho de 2026.

 Felipe Cardoso é fundador da Rank Certo e analisa dados de busca há mais de uma década. O levantamento completo, com metodologia e limitações, está em rankcerto.com.br/estudos/uso-de-ia-no-brasil

FONTE/CRÉDITOS:  Felipe Cardoso é fundador da Rank Certo

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