Mais um dia de compromissos, ocupações, tomada de decisões etc. Quando sobra tempo vai bem uma partida de esporte com amigos. Aprecio o encontro, o desporto, a movimentação física que reflete em bem-estar e revigora a musculatura, as articulações, etc.
O placar importa menos e nem será assunto predominante. Importa sim aquilo tudo que se dá em campo, a energia, os lampejos decisórios ao atacar ou defender. Tudo se resume em movimentos mágicos, onde o blefe naturalmente faz parte. Seja vôlei, basquete, handebol ou até mesmo futebol, entre outras modalidades.
Ao soar o apito final, a roupa suada será lavada e esperará dobrada em alguma gaveta até o próximo convite, porque a vida segue com seus altos e baixos, quando precisamos driblar dificuldades, dar assistência, planejar jogadas, impedir o avanço de adversários, fazer grandes defesas e, sempre que possível alterar favoravelmente o placar.
Na cabeça permanecem ricas lembranças do jogo entre amigos e não vemos a hora de repetir aquilo, onde, apesar das semelhanças a experiência sempre se renova. Nada se compara ao sorriso e as típicas saudações ao chegar e ao sair.
Poucas pessoas bastam, desde que se formem duas equipes, nem sempre com número regulamentar, nem camisa de cor uniforme. Um tênis surrado serve na brincadeira, sem árbitros, nem técnico. Se há lesão, um colega se encarregada e acudir, por vezes, um adversário, porque o que realmente está em jogo e o desporto e a amizade.
Que pena! Transformaram isso num mega-negócio, no qual a rivalidade devora o bom-senso e fala mais alto o senso de disputa, não mais pelo que aponta o placar, mas por algo sem sentido, aguçado por instintos primitivos, com apego a marcas intangíveis e inalcançáveis, como se pesasse algum emblema ao peito. A difusão de cores ganha simbolismo identitário e deixa de importar quem veste diferente. Lá se vão amizades, conversas amenas, antigos convívios e até parentescos. Alambrados tombam, sangue jorra, mães choram sem entender em que se tornaram bola e camisa de time como presente de aniversário na primeira infância.
De outro lado, se a criança manifesta alguma habilidade diferenciado com a bola, família e amigos logo instigam a vivenciar antecipadamente um sonho, bordado de empolgados elogios, como quem está a um passo de dinheiro e fama, ficando de fora a verdadeira formação com zelo familiar que se complementa nos bancos escolares, que logo são abandonados.
Como em gigantesca pirâmide, vemos brilhar no topo poucos nomes, enquanto desmoronam do alto à base milhões de projetos incompletos, sonhos desfeitos, funções coadjuvantes e outras tantas decepções, daqueles que foram levados a se entorpecer pela vaidade e pelo orgulho. Mais dramático ainda é saber que a base da pirâmide é sustentada pelos pequeninos, que sequer sabem o que querem, induzidos por incautos adultos que fazem parte da legião dos que subiram míseros degraus e delegam à geração seguinte a discordância de verem-se vencidos.
Brava gente brasileira que derrama suor em causa alheia. Incapaz de perceber a indução que a move como minúscula peça da grande engrenagem que, na outra ponta jorra riquezas que jamais lhe pertencerão. Não compreende a manipulação. Tragicamente se traja da cabeça aos pés, confundindo com nacionalismo e sentimento de pertença. Compra até vuvuzela para se fazer notar em meio a um alarido ensurdecedor, onde o turbilhão de gritos empana a verdadeiramente voz humana, pois ali já não cabem palavras. Apenas algum zunido a demostrar um mergulho involuntário no oceano do apedeutismo que iguala para esmagar e sorver o caldo, que nada mais é, do que as mentes convencidas de que sobre tamanha lavagem cerebral, precisam comprar, presentear, defender, brigar, amar, retrucar, além de inserir em suas rotinas como assunto indispensável, que na verdade jamais fora.
Quando me pago pensando nessa triste realidade, dirijo-me à minha copa, apanho uma taça e saboreio moderada dose de um bom vinho.