No litoral norte catarinense, uma construtora com 14 anos de mercado, o Grupo IPEX, conseguiu quintuplicar o tamanho de sua operação em relação ao ano de 2024. Atualmente, a incorporadora desenvolve aproximadamente 80 mil metros quadrados em empreendimentos residenciais e comerciais na região de Camboriú. A arrancada aconteceu depois da empresa reformular sua gestão e trocar o crédito bancário tradicional por fundos estruturados no mercado de capitais.
"O fluxo de caixa na construção funciona quase como um 'dente de serrote', com oscilações naturais entre entradas e saídas ao longo do ciclo das obras. Contar com um parceiro que compreenda essa dinâmica imobiliária e ofereça segurança nas operações é o que sustenta o crescimento sem comprometer a saúde operacional", afirma Ramon Geremias, diretor financeiro da IPEX.
Essa tendência observada com a construtora catarinense acompanha de perto o cenário macroeconômico nacional de amadurecimento financeiro. Dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que o mercado de capitais brasileiro vem atingindo patamares recordes, superando a expressiva marca de R$ 500 bilhões em captações por parte de empresas que buscam alternativas viáveis aos bancos.
Além disso, indicadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontam que a rigidez e a excessiva burocracia do crédito tradicional fazem com que mais de um terço dos empresários do setor busquem novas ferramentas de financiamento, abrindo espaço definitivo para a consolidação dos fundos especializados.
Empresários do setor também destacam que o foco dessa mudança não está no "crédito de emergência", mas na capacidade de fundos estruturados oferecerem uma previsibilidade que acompanhe o cronograma de longo prazo das obras. Essa alternativa atende especialmente empresas saudáveis e com governança sólida, que utilizam mecanismos como os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) — ferramenta que antecipa para as empresas os valores que elas têm a receber a prazo — como uma estratégia de planejamento.
Aposta na previsibilidade - O amadurecimento na forma como o empresariado lida com o capital é um fenômeno observado de perto pela SP CAPITAL. Com sede em Itapema, no coração do polo imobiliário que mais cresce no país, a instituição registrou um salto de 711% em suas operações nos últimos dois anos ao se posicionar como um braço estratégico para empresas que buscam alternativas ao modelo bancário genérico.
Para a FIDC catarinense, o movimento consolida uma mudança de cultura: o crédito deixa de ser visto como um 'socorro' e passa a ser compreendido como uma engrenagem de planejamento que respeita as particularidades do ciclo da construção civil.
"Não entregamos apenas capital. Entregamos uma estrutura que entende que o 'dinheiro está no tempo'. Uma vez estabelecida a parceria e feita a análise técnica rigorosa, a fluidez do recurso permite que o empresário tenha a previsibilidade necessária para focar no canteiro de obras e no cumprimento de prazos", explica Luís Carlos Schneider, diretor presidente da SP CAPITAL.
Para se ter uma ideia, a instituição já injetou mais de R$ 500 milhões especificamente no setor de construção civil e infraestrutura catarinense. Em 2025, a SP CAPITAL atingiu a marca de mais de R$ 1 bilhão operados em diversos setores da economia (incluindo indústria e serviços), com a meta estratégica de chegar aos R$ 2,4 bilhões em 2026.
Termômetro do setor - O fenômeno da desintermediação bancária ganha força em um momento em que a construção civil se consolida como um dos principais motores econômicos do Estado. De acordo com o balanço do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgado pelo Ministério do Trabalho, o setor fechou o primeiro trimestre de 2026 com mais de 9,6 mil novos postos de trabalho gerados em Santa Catarina, impulsionado sobretudo pelo boom de edifícios no Litoral Norte, em polos como Itapema e Camboriú.
Para o economista e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Daniel da Cunda Corrêa da Silva, o acesso ao mercado de capitais funciona como um selo de maturidade para o setor, já que exige das construtoras um nível elevado de governança.
"O mercado de capitais é bastante seletivo. Ele exige certificações, diretrizes de ‘compliance’ e ajustes na gestão financeira e operacional que revelam amadurecimento. Além disso, essa modalidade estende o ciclo de expansão imobiliária da região ao permitir captar recursos de fora do Brasil, apresentando-se como uma alternativa muito mais dinâmica e acelerada que o financiamento bancário tradicional", analisa o economista.
Impacto no desenvolvimento regional - Essa necessidade de ferramentas financeiras previsíveis é o que garante que a curva de empregos na região não sofra frenagens bruscas. Para o diretor presidente da SP CAPITAL, Luís Carlos Schneider, o reflexo prático desse modelo de captação vai muito além dos números das planilhas: ele se traduz na segurança de que o canteiro de obras manterá seu ritmo.
"A estabilidade financeira de uma construtora mantém a roda girando para centenas de famílias. Quando o empresário garante o recurso adequado ao cronograma físico da obra, ele protege desde o fornecedor de insumos até o comércio local. É a gestão financeira moderna se transformando em desenvolvimento social para Santa Catarina", finaliza Schneider.

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