Nossa distração tem permitido um triste abandono diante dos nossos olhos. Além da perda de prédios antigos, documentos históricos ou objetos de museu, desaparece algo ainda mais profundo: a alma cultural das comunidades brasileiras.
Pouco a pouco, deixamos morrer aquilo que nos dava identidade. As festas comunitárias já não têm o mesmo brilho. O sotaque regional começa a ser escondido como se fosse defeito. O ronco da velha gaita e a boa moda de viola perdem espaço para produtos musicais fabricados em série ou para o repetitivo batidão eletrônico que nada comunica além do impulso momentâneo. As antigas bandinhas do Sul, os bailes do interior, os programas de rádio com voz humana e sotaque da terra vão sendo substituídos por um modelo cultural padronizado, apressado, enlatado e sem raízes.
Claro que a modernidade importa e é bem-vinda. O perigo está na substituição completa da memória local por uma pasteurização global onde tudo soa igual, veste igual, canta igual e pensa igual. As grandes mídias acabam transformando pessoas em meros repetidores de padrões pré-estabelecidos, muitos deles bastante questionáveis e aceitos sem qualquer reflexão.
Antigamente, cada região possuía seus símbolos afetivos. O interior catarinense, por exemplo, construiu parte de sua identidade nas festas religiosas, nas rodas de chimarrão, nos encontros de violeiros, nos corais, nas bandinhas, nos CTGs, nas quermesses e nas rádios locais. Havia pertencimento. O povo reconhecia sua própria voz.
Hoje, muitas crianças aplaudem e veneram artistas distantes, até estrangeiros, mas não sabem quem foram os músicos que ajudaram a construir a história cultural de sua própria cidade. Muitos jovens jamais ouviram uma verdadeira moda sertaneja de raiz ou uma canção italiana e alemã que ajudou a formar culturalmente o Sul do Brasil. Criamos gerações conectadas ao mundo inteiro, mas desconectadas da própria origem.
Nem percebemos o quanto estamos nos tornando emocionalmente vulneráveis pela perda de nossas referências culturais. Sem memória coletiva, passamos a consumir identidades prontas, enquanto lentamente se desgastam nossa autoestima, nosso senso comunitário e o respeito pela própria trajetória.
A singeleza que molda a cultura regional não representa atraso. Atraso é imaginar que desenvolvimento significa abraçar o novo desprezando o antigo. Os países mais fortes do mundo jamais abriram mão de suas identidades culturais. Os povos mais admirados preservam língua, música, culinária, tradições e símbolos históricos com orgulho quase sagrado.
A realidade também expõe gastos aviltantes na contratação de “ídolos” momentâneos, muitos deles propagando exatamente o oposto dos valores que o poder público deveria incentivar, enaltecer e preservar.
Enquanto isso, multidões se acotovelam madrugada adentro, tolerando atrasos injustificáveis e aplaudindo uma anticultura que lhes custa muito mais caro do que imaginam.
Bendito seja o pequeno palco alternativo ao lado, onde ainda ressoa algum naco da teimosa cultura raiz que insiste em sobreviver na alma do povo.
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