O Hino Nacional Brasileiro não pode ser confundido com espetáculo musical. Está muito acima disso. É um canto cívico coletivo que não deveria servir de palco para performances artísticas.
Como se não bastasse sua complexidade melódica, a obra exige preparo, extensão vocal considerável e atenção às mudanças de andamento. Não se trata de uma canção qualquer. Trata-se de uma composição concebida para representar uma nação.
Utilizando construções poéticas e sintáticas de elevado nível, bem diferentes do nosso linguajar cotidiano, a letra de Joaquim Osório Duque Estrada exalta a terra que, a partir do Grito do Ipiranga, firma-se e afirma-se como país soberano. Nela estão presentes o ideal libertário, o caráter independente da Nação e a bravura de um povo que, por sua Pátria, desafia a própria morte.
Por sua vez, Francisco Manoel da Silva esmerou-se na criação de uma composição vibrante, solene e afirmativa, como convém a quem tem algo importante a dizer e não pretende deixar dúvidas.
Convém, portanto, que sua interpretação não seja confiada indistintamente a cantores habituados às canções populares, nas quais predominam a liberdade rítmica, a improvisação e a marca pessoal do intérprete. O Hino exige exatamente o contrário: fidelidade, rigor e caráter cerimonial.
O protagonismo pertence à coletividade, não ao artista. O cantor pode contribuir como guia, assegurando a condução adequada da execução, mas o coro deve prevalecer, pois o fundamento do Hino é plural. Foi criado para unir vozes, não para destacar uma delas.
Hino — o Nacional ou qualquer outro — não é show.
Longe de qualquer ataque aos artistas que se aventuraram nessa missão — todos merecedores de respeito — esta reflexão busca discutir o papel que devemos atribuir ao Hino Nacional, um dos mais importantes símbolos da República. Sua expressão coletiva de Nação não pode ser transformada em vitrine de personalidades, preferências ou conveniências.
Convém ainda observar quem organiza determinados eventos e quais critérios orientam a escolha dos intérpretes. Tais decisões raramente são casuais. Em torno delas gravitam preferências estéticas, conveniências institucionais e, não raramente, mensagens que ultrapassam o campo musical.
Não se trata apenas de escolher quem canta melhor. A escolha também comunica valores, prioridades e visões de mundo. Afinal, não há neutralidade quando alguém é convidado a dar voz ao principal símbolo musical da Nação diante de milhões de pessoas.
Por isso, o debate não deveria restringir-se aos erros ou acertos dos intérpretes. Mais importante é compreender por que determinadas escolhas são feitas e qual imagem do país se pretende projetar por meio delas. Quem sugeriu? Quem convidou? E por quê?
É aí que o limo torna o terreno escorregadio, muito além de letra e melodia.
E, como temos visto, sobre esse limo, até os mais talentosos correm o risco de escorregar.
Comentários: