Apesar dos sucessivos cortes na taxa Selic promovidos pelo Banco Central, as empresas do Litoral Norte catarinense continuam enfrentando barreiras para acessar financiamentos com custos razoáveis. O alívio na taxa básica de juros ainda não chegou ao dia a dia do setor produtivo regional, onde companhias dos segmentos de construção civil, incorporação e logística portuária esbarram na postura defensiva dos grandes bancos para manter a liquidez de suas operações.
Na prática, o empresariado da região enfrenta um paradoxo: embora a taxa básica de juros esteja recuando, as taxas cobradas na ponta pelos grandes bancos continuam elevadas. Para companhias que movimentam faturamentos expressivos e necessitam de capital de giro rápido para manter canteiros de obras ativos ou operar cadeias de suprimentos e transporte, esse descompasso gera um gargalo operacional relevante.
INCERTEZA NACIONAL E RESTRIÇÃO DE CRÉDITO
De acordo com analistas econômicos da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), a lentidão na transmissão da política monetária para o crédito real deriva tanto de fatores macroeconômicos quanto do comportamento defensivo das instituições financeiras.
Para o economista e professor da Univali, José Osvaldo Coninck, o cenário fiscal incerto faz com que o mercado projete juros altos por um período mais longo. "O Banco Central controla a taxa de curto prazo, mas o crédito corporativo é balizado pelas taxas de longo prazo, que dependem das expectativas de inflação e do equilíbrio fiscal", explica Coninck. "Como há pressões inflacionárias no radar, o sistema bancário mantém a precificação do crédito em patamares elevados por precaução", diz.
Além do cenário macroeconômico, o travamento na concessão de recursos é ampliado pelo risco de crédito. É o que aponta o também economista e professor do curso de Relações Internacionais da Univali, Daniel da Cunda Corrêa da Silva, ao destacar o impacto da inadimplência e da alta concentração bancária no país. "O elevado volume de dívidas corporativas no mercado nacional fez com que os bancos comerciais endurecessem os critérios de concessão, aumentando as exigências de garantias reais para proteger seus balanços", analisa Cunda.
"Somado a isso, a baixa concorrência entre os grandes bancos reduz a pressão para que as taxas na ponta sejam repassadas com rapidez ao setor produtivo".
O IMPACTO NOS CANTEIROS DE OBRAS E NO FLUXO LOGÍSTICO
No Litoral Norte de Santa Catarina, esse travamento do crédito bancário afeta diretamente a dinâmica dos dois principais motores econômicos regionais.
Na construção civil e incorporação, o modelo tradicional de financiamento frequentemente esbarra na morosidade de aprovação de limites e na exigência de garantias reais pesadas. Quando o repasse bancário atrasa, o ritmo das fundações e estruturas corre o risco de desacelerar, exigindo fôlego de caixa imediato das empresas para honrar compromissos com fornecedores de insumos.
Da mesma forma, no setor de logística, transporte e serviços portuários — essenciais para o fluxo de cargas de Itajaí e Navegantes —, a necessidade de capital de giro é constante para cobrir custos operacionais e armazenagem antes do recebimento final dos fretes.
Para evitar o endividamento bancário a taxas abusivas, a alternativa para companhias do Litoral Norte tem sido a busca por fundos de investimento e operações de antecipação de recebíveis.
O professor Daniel Cunda avalia que a migração para essas ferramentas tornou-se a principal solução contemporânea de caixa. "A busca por fundos e estruturas de antecipação de recebíveis consolida-se como uma das poucas vias ágeis no momento diante da restrição do crédito bancário de balcão. Trata-se de uma estratégia de gestão para preservar a liquidez das empresas", pontua o economista.
NOVAS ROTAS PARA O FINANCIAMENTO EMPRESARIAL
A movimentação do empresariado regional reflete uma mudança estrutural na forma de gerir o fluxo de caixa diante das oscilações da política monetária. Para o especialista em crédito corporativo no mercado de capitais Luís Carlos Schneider, de Itapema, a dependência exclusiva do sistema bancário tradicional deixou de ser funcional para o ritmo do Litoral Norte.
"Empresas que operam em mercados de alto valor agregado e alta rotação de caixa não podem ter seus cronogramas condicionados aos prazos de comitês bancários tradicionais", afirma Schneider. "O aproveitamento de mecanismos do mercado de capitais para antecipar fluxos futuros permite reter liquidez no tempo correto da operação, desatando o nó do crédito e mantendo os investimentos regionais em andamento", destaca.
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